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Cascais

«Cinco galinhas e meia
deve o Senhor de Cascais;
e a meia vinha cheia
de apetite para as mais»
 
Assim troçava de D. António de Castro, 4.º Conde de Monsanto, o grande Luís Vaz de Camões, por continuar a aguardar as galinhas recheadas que lhe haviam sido prometidas em troca de uma copla, eternizando em epigrama o nome da vila pela qual já passara, a bordo da nau Santa Clara, em 1570. A região seria, depois, visitada por muitos outros poetas e escritores, sobretudo a partir dos finais do século XIX, quando a vila se transformou, durante o período do ano consagrado aos banhos de mar, na capital do lazer em Portugal. Nenhum destes homens e mulheres lhe foram indiferentes, escolhendo Cascais para passar férias, para viver ou até como local de exílio. Partamos, assim, à descoberta da(s) sua(s) história(s) em Cascais!
 
 
1. Almeida Garrett [1799-1854]
Jardim Visconde da Luz
«Acabava ali a terra
Nos derradeiros rochedos,
A deserta árida serra
Por entre negros penedos
Só deixa viver mansinho
Triste pinheiro maninho.
 
E os ventos despregados
Sopravam rijos na rama,
E os céus turvos, anuviados, 
O mar que incessante brama...
Tudo ali era braveza
De selvagem natureza»
[Folhas Caídas, 1853]
 
João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, mais tarde 1.º Visconde de Almeida Garrett, foi escritor, dramaturgo, orador, par do reino, ministro e secretário de estado honorário. A esta figura maior do romantismo português, cuja atividade marcou de forma decisiva a história da literatura e da dramaturgia, com obras como Frei Luís de Sousa (1843), Viagens na Minha Terra (1846) ou Folhas Caídas (1853), se deveu, também, a fundação do Teatro Nacional de D. Maria II e do Conservatório de Arte Dramática.
A sua relação com Cascais remonta, pelo menos, a 1849, quando visitou a vila numa época em que ainda era hábito dizer «A Cascais, uma vez, para nunca mais», para visitar Rosa Montufar Infante, Baronesa e depois Viscondessa de Nossa Senhora da Luz, por quem se apaixonara anos antes. Note-se que ao seu marido, Joaquim António Velez Barreiros, Visconde da Luz, se devia, então, a promoção de Cascais em função da moda dos banhos de mar, nomeadamente por meio da reconstrução da estrada que ligava a vila a Oeiras e a Lisboa. Em 1885, Pinheiro Chagas referir-se-ia abertamente à razão das visitas de Garrett ao concelho, secundando Tomás Ribeiro, que em Delfina do Mal, de 1868, já aludira à «poética solidão» do Estoril, «onde habitou Garrett», junto às Termas, afamadas pela qualidade terapêutica das suas águas.
O Jardim Visconde da Luz, foi inaugurado em 1867, em terreno cedido pelo titular, junto à Ribeira das Vinhas.
 
2. Herberto Helder [1930-2015]
Rua Frederico Arouca, antiga Loja Valentim de Carvalho, n.º 383
Considerado o maior poeta português da segunda metade do século XX, foi também jornalista, bibliotecário, tradutor e apresentador de programas de rádio e um dos colaboradores da revista Pirâmide (1959-1960). 
Criando em seu torno uma atmosfera algo misteriosa, negava-se a conceder entrevistas ou a ser fotografado, assim como a receber homenagens, prémios ou condecorações, como sucedeu, em 1994, quando recusou o Prémio Pessoa. A sua escrita, marcada por sucessivas viagens, começou por se situar no âmbito de um surrealismo tardio, traduzindo-se numa quantidade assinalável de obra, como O Amor em Visita (1958), Os Passos em Volta (1963), Húmus: Poema-montagem (1967), Apresentação do Rosto (1968), O Bebedor Noturno (1968), Vocação Animal (1971), Cobra (1977), Photomaton e Vox (1979), Flash (1980), A Plenos Pulmões (1981), A Cabeça entre as Mãos (1982), As Magias (1987), Última Ciência (1988), Poesia Toda (1996), A Faca Não Corta o Fogo (2008), Ofício Cantante: Poesia Completa (2009), Servidões (2013), A Morte Sem Mestre (2014) e Poemas Completos (2014).
O seu último livro, Poemas Canhotos, foi publicado, em 2015, dois meses após a sua morte, em Cascais, onde residia há muitos anos. Uma das suas mais curiosas obras é exatamente o poema que ilustra a pintura de Sá Nogueira nas paredes exteriores da antiga loja da Valentim de Carvalho, em Cascais, que remonta aos anos de 1966-69.
 
3. Mircea Eliade [1907-1986]
Rua da Saudade, n.º 13
«Passei cerca de cinco anos em Portugal, e uma parte da ação do romance decorre em Lisboa, Cascais e Coimbra […] Se os compreendi bem, os Portugueses têm uma determinada conceção do Tempo, da Morte e da História, que lhes permite pressentir o tema central (e “secreto”) do romance»
[Bosque Proibido, 1954]
 
Nascido na Roménia, em 1907, este romancista e ensaísta viria a ser considerado um dos mais influentes especialistas em história e filosofia das religiões, não obstante ter trabalhado como adido cultural nas representações diplomáticas romenas em Londres, em 1940, e em Lisboa, nos anos de 1941 e 1944, onde escreveria Os Romenos: Latinos do Oriente e Salazar e a Revolução Portuguesa. Entre a sua extensa obra literária e científica, traduzida em português, destaca-se, ainda, Tratado de História das Religiões (1949), O Mito do Eterno Retorno: Cosmo e História (1949) e O Sagrado e o Profano (1959).
Passaria duas curtas estadas em Cascais, onde chegou a inscrever-se como leitor do Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães. No verão de 1941 arrendou casa a Costa Pinto, instalando-se, de fevereiro a julho de 1945, numa habitação da Rua da Saudade, a que se refere nas suas Memórias, da seguinte forma: «Situava-se no n.º 13 da Rua da Saudade, uma ruela pitoresca, possuindo um pequeno terraço sobre os rochedos avançando sobre o oceano. Algumas estantes vazias na maior das divisões bastaram para arrumar os livros que havia conservado». Alojar-se-ia, depois, até setembro de 1945, noutra casa, na mesma rua.
Impossibilitado de voltar à Roménia do pós-guerra, devido às suas convicções políticas, estabeleceu-se em Paris, onde escreveu o romance Bosque Proibido, em 1954, cuja ação também se desenvolve em Cascais. Emigraria, em 1956, para os Estados Unidos da América, onde veio a lecionar História das Religiões, na Universidade de Chicago. 
 
4. Maria Amália Vaz de Carvalho [1847-1921]
Vila D. Pedro, Rua Fernandes Tomás, n.º 1
Tendo publicado apenas com vinte anos a sua primeira obra, o poema a quatro cantos Uma Primavera de Mulher, viria, depois, a casar-se com o poeta Gonçalves Crespo. Cedo se destacou por intensa colaboração na imprensa, celebrizando-se pela produção de crónicas, críticas literárias, artigos políticos e opiniões sobre a ética, a educação ou a condição e o papel da mulher na sociedade, o que lhe garantiria, em 1912, o ingresso na Academia das Ciências de Lisboa, distinção que nunca havia sido atribuída a uma mulher.
Entre a sua vasta produção literária destacam-se A Arte de Viver na Sociedade (1897) e Vida do Duque de Palmela D. Pedro de Sousa e Holstein (1898-1903), obra que lhe valeu a oferta de uma «pequena casa à beira do Oceano» pelos Duques de Palmela: a Vila D. Pedro. Não obstante ter constituído na Travessa de Santa Catarina o mais importante salão literário de Lisboa, por onde passaram Ramalho Ortigão, Camilo Castelo Branco e Guerra Junqueiro, entre outros, Maria Amália Vaz de Carvalho também reuniria na casa de Cascais muitos amigos, como Eça de Queirós, para animados convívios.
 
5. Fernando Pessoa [1888-1935]
Alameda dos Combatentes da Grande Guerra [Rua Oriental do Passeio, n.º 2, atualmente inexistente]
Rua de Santa Rita, n.º 331, S. João do Estoril
«O que lhe disse de ir para Cascais (Cascais quer dizer um ponto qualquer fora de Lisboa, mas perto, e pode querer dizer Sintra ou Caxias) é rigorosamente verdade: verdade, pelo menos, quanto à intenção. Cheguei à idade em que se tem o pleno domínio das próprias qualidades, e a inteligência atingiu a força e a destreza que pode ter. É pois a ocasião de realizar a minha obra literária, completando umas coisas, agrupando outras, escrevendo outras que estão por escrever. Para realizar essa obra, preciso de sossego e um certo isolamento. Não posso, infelizmente, abandonar os escritórios onde trabalho (não posso, é claro, porque não tenho rendimentos), mas posso, reservando para o serviço desses escritórios dois dias da semana (quartas e sábados), ter de meus e para mim os cinco dias restantes. Aí tem a célebre história de Cascais»
[Carta a Ofélia Queirós, 29 de setembro de 1929]
 
Fernando António Nogueira Pessoa passou parte da sua infância em Durban, na África do Sul. Aos 17 anos voltou a Lisboa para frequentar o Curso Superior de Letras, que, todavia, abandonou, vindo a colaborar em revistas como A Águia ou a Presença e a fundar, em 1915, a Orpheu, que lançou o movimento modernista em Portugal e, em 1924, a Athena: Revista de Arte. 
A 9 de outubro de 1929, o mais universal poeta português referir-se-ia, numa carta à sua amada Ofélia, à vontade de se mudar para Cascais, escrevendo: «Preciso cada vez mais de ir para Cascais...». O seu fascínio pela região levou-o a passar várias temporadas na vila, assim como na casa da sua irmã, em S. João do Estoril, produzindo, então, textos de propaganda à Costa do Sol, em inglês; uma reportagem sobre a Colónia Infantil Macfadden nos Banhos da Poça; uma narrativa tendo por cenário uma “Casa de Saúde de Cascais” ou simplesmente poesia, com o mar por perto. Em 1930, voltaria à vila para um misterioso encontro com o mago britânico Aleister Crowley, que, culminando num suicídio encenado na Boca do Inferno, animou o poeta para a conceção de uma novela policial.
De forma a dedicar-se à sua obra literária, procuraria em Cascais «sossego e um certo isolamento», razão pela qual, em 1932, se candidatou ao lugar de Conservador do Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães – por requerimento em que afirma morar provisoriamente em Cascais, na Rua Oriental do Passeio, n.º 2 – que veio ser atribuído ao pintor Carlos Bonvalot. Ainda assim, dois anos depois surgiria Mensagem, o único livro de poesia em português que publicou em vida, porventura inspirado pelo mar de Cascais.
 
6. Ramalho Ortigão [1836-1915]
Praia da Ribeira
«Com os primeiros dias de setembro, terminou o período consagrado pela moda à vilegiatura de Sintra. Desde que o mês de agosto finda, até que S. Carlos começa, prescrevem as praxes que a estação marítima suceda à estação de montanha. Enchem-se nesta época, até deitar por fora, as praias de banhos da saída do Tejo e do litoral desde Setúbal até Âncora. Lisboa inteira debanda. [...] Mas de todas as praias portuguesas, é principalmente Cascais a que herda de Sintra a élite do seu verão»
[As Praias de Portugal: Guia do banhista e do viajante, 1876]
 
José Duarte Ramalho Ortigão sentiu, desde cedo, uma forte inclinação para as letras, que o levou a colaborar na imprensa e a participar nos mais distintos círculos intelectuais, ligando-se, assim, ao grupo das Conferências do Casino e a Eça de Queirós, com quem iniciaria, em 1871, a publicação de As Farpas, que redigiu, depois, sozinho, até 1884. O pendor didático da sátira política e social de cariz positivista que sempre o caraterizou não colidiu com o seu acendrado amor pelos valores da terra portuguesa, que divulgou numa obra marcada pela versatilidade, como o atestam Literatura de Hoje (1866), Em Paris (1868), Histórias Cor-de-Rosa (1870), O Mistério da Estrada de Sintra (com Eça de Queirós, 1870), Banhos de Caldas e Águas Minerais (1875), As Praias de Portugal (1876), Notas de Viagem (1878), A Holanda (1885), John Bull 1887), O Culto da Arte em Portugal (1896), El-Rei D. Carlos, o Martirizado (1908) e Últimas Farpas (1916).
Mercê da ascensão de Cascais à condição de rainha das praias portuguesas, sob o alto patrocínio da Família Real, a partir de 1870, Ramalho Ortigão – que quando visitava a vila costumava pernoitar no Hotel do Globo, junto à Praia da Ribeira – produziu alguns textos sobre o concelho. Todavia, seria sobretudo em As Praias de Portugal, de 1876, que mais se referiria à vila, anotando que «Desde o meado de setembro até ao fim da estação, Cascais torna-se o centro mais completo, o mais fino extrato da vida elegante em Portugal […]. É a plena vida de corte na sua expressão mais genuína. De dez senhoras que passam, com as suas toilettes de campo, vestidos de mousseline semeados de flores silvestres, chapéus de palha, o grande leque – coup de vent – suspenso do cinto por um gancho – oito são titulares».
 
7. José da Cunha Brochado [1651-1733]
Praça 5 de Outubro
«O nosso modo de escrever é mui diverso do dos estrangeiros. Nos nossos escritos tudo são palavras dependuradas, muitas vezes sem significação nem sentido; nos estrangeiros há uma expressão genuína e breve, um modo singelo e sem rodeios. Este abuso tem princípio na nossa ignorância, pois nos parece que valem mais o culto e as palavras do que o argumento da oração» 
[Memórias, 1909]
 
Natural de Cascais, destacar-se-ia como magistrado em Lisboa, estreando-se na carreira diplomática em 1695, ao serviço de D. Luís Álvares de Castro, Marquês de Cascais, na sequência da sua nomeação enquanto Embaixador em Paris, a quem sucederia, até 1704, como enviado extraordinário na Corte de Luís XIV. No ano de 1710 foi enviado em missão diplomática para Londres e depois para Madrid, vindo a representar Portugal no Congresso de Utrecht, que em 1713 pôs termo à Guerra de Sucessão de Espanha. Ingressou na recém-criada Academia Real da História Portuguesa, no ano de 1721, dando início à produção da Coleção de Documentos e Memórias da Academia Real Portuguesa. Deixou, ainda, alguns textos inéditos, como Memórias Particulares ou Anedotas da Corte de França apontadas por José da Cunha Brochado, no tempo em que foi enviado àquela mesma Corte e Auto da Vida de Adão, Pai do Género Humano (1784), sob o pseudónimo de Félix José de Soledade. A sua correspondência constitui fonte incontornável para o estudo do Portugal dos séculos XVII e XVIII.
 
8. Ruben A. [1920-1975]
Casa Silva Leitão, Avenida D. Carlos I, n.º 106
«O verão contrastava. Julho é o mês agreste em Cascais. Uma nortada de levar as ideias pela costa fora, os chapéus de palha, os patetinhas, as boinas de cor que começavam a usar-se, voavam rentes à areia e, quantas vezes, caíam na borda-d’água, ali na praia da Conceição, cheia de gentes que se conheciam desde os sons indistintos da chupeta»
[O Mundo à Minha Procura, 1964-1968]
 
Ruben Alfredo Andresen Leitão, conhecido por Ruben A., nasceu em Lisboa, mas viveu alguns dos momentos mais marcantes da sua juventude em Cascais, que imortalizou na autobiografia O Mundo à Minha Procura, redigida entre 1964 e 1968. Passou, assim, parte das suas férias na Casa Silva Leitão, que o avô mandara construir em 1896, na futura Avenida D. Carlos I, em estadas marcadas pela praia e pela prática do bridge, do ténis e do golfe. A partir de 1939 passou também a frequentar, aos fins de semana, Cascais, o Guincho e o Estoril, onde desenvolveria o gosto pela escrita e pela leitura, vindo a inscrever-se, em 1941, como leitor do Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães.
Entre 1947 e 1951 foi professor no King's College, em Londres, trabalhando, entre 1954 e 1972, na Embaixada do Brasil em Lisboa, até ser nomeado para o Conselho de Administração da Imprensa Nacional-Casa da Moeda. No plano literário afirmou-se pela publicação de Páginas (1949-70), Caranguejo (1954), Cartas de D. Pedro V aos seus Contemporâneos (1961), A Torre de Barbela (1964) e O Outro que era Eu (1966). Publicaria a sua última obra, a novela Silêncio para 4, em 1973, deixando inédito Kaos, romance de inspiração histórica.
 
9. Branquinho da Fonseca [1905-1974]
Travessa Tenente Valadim, n.º 4
Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães, Avenida Rei Humberto II de Itália
António José Branquinho da Fonseca que assinou os seus primeiros textos sob o pseudónimo de António Madeira, experimentou diversos géneros literários, desde o poema lírico ao romance, passando pela novela, o texto dramático e o poema em prosa, ainda que, como costumava dizer, a sua «expressão natural» era o conto.
Tendo cofundado, em 1927, com José Régio e João Gaspar Simões, a revista Presença, onde colaborou até 1930, seria nomeado, no ano de 1942, Conservador do Museu-Biblioteca Conde de Castro Guimarães, fixando-se, então, em Cascais, terra natal da sua mulher, onde desenvolveu durante 19 anos um meticuloso trabalho em prol da divulgação do livro e da leitura.
No seu primeiro relatório de atividades do Museu-Biblioteca registaria que «A lista dos livros adquiridos [...] informa a orientação que se pretende dar a esta biblioteca: não um arquivo dos séculos, mas uma biblioteca viva, um órgão de verdadeira cultura; decerto com o alicerce nas idades passadas, mas voltada para os dias de hoje e de amanhã». Não obstante, o momento mais marcante da sua passagem por Cascais ocorreria em 1953, ao implementar uma inovadora «Biblioteca Circulante», destinada a servir as localidades mais afastadas da vila, ao mesmo tempo que sua atividade literária progredia, editando algumas das obras de maior sucesso, como O Barão (1942), Rio Turvo e Outros Contos (1945), Porta de Minerva (1947) ou Mar Santo (1952).
Convidado, em 1960, por Azeredo Perdigão para organizar e dirigir o Serviço de Bibliotecas Itinerantes na Fundação Calouste Gulbenkian, expandiu a nível nacional a experiência de Cascais, onde continuou a viver, na Travessa Tenente Valadim.
 
10. Eça de Queirós [1845-1900]
Casa de S. Bernardo, Avenida Humberto II de Itália
«Meu querido Bernardo… não quero eternizar esta epístola. Por isso não te digo a saudade com que penso na varanda de Cascais e nas preguiçosas manhãs passadas a pasmar para a luz e para a água, nas cavaqueiras com a prima Matilde»
[Carta ao Conde de Arnoso, 25 de julho de 1896]
 
José Maria de Eça de Queirós, um dos mais importantes escritores portugueses de sempre, é também considerado mestre do realismo nacional. Entre as suas obras mais aclamadas destacam-se O Mistério da Estrada de Sintra (1870), O Crime do Padre Amaro (1875), A Tragédia da Rua das Flores (1877-78), O Primo Basílio (1878), O Mandarim (1880), A Relíquia (1887), Os Maias (1888) e A Ilustre Casa de Ramires (1900), bem como textos editados postumamente, casos de A Cidade e as Serras (1901), Prosas Bárbaras (1903), A Capital (1925) e O Conde de Abranhos (1925).
Eça de Queirós gostava de Cascais, que visitou amiúde, passando temporadas na Casa de S. Bernardo, propriedade de Bernardo Pinheiro Correia de Melo, 1º Conde de Arnoso, de quem era amigo. Aqui se reuniam os “Vencidos da Vida”, grupo com forte ligação ao movimento conhecido por Geração de 70, de que faziam parte, entre outros, Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, o Marquês de Soveral e os Condes de Arnoso, Ficalho e Sabugosa. 
 
11. João Gaspar Simões [1903-1987]
Casa do Dragão, Avenida da República, n.º 666
Romancista, dramaturgo e ensaísta, João Gaspar Simões é sobretudo conhecido como crítico literário. Foi cofundador de algumas das mais importantes revistas literárias portuguesas, como a Tríptico (1924) e a Presença (1927), colaborando, ainda, no Diário de Lisboa, no Diário Popular e no Diário de Notícias. O seu primeiro romance, Elói ou o Romance numa Cabeça, data de 1932 e valeu-lhe o “Prémio da Imprensa”. Igualmente premiada foi a biografia Eça de Queirós: O Homem e o Artista (1945), não obstante a sua vastíssima atividade se traduzir em outras obras fundamentais, tais como Tendências do Romance Contemporâneo (1933), Pântano (1940), Obras Completas de Fernando Pessoa (1942-1945), Perspetiva da Literatura Portuguesa do Século XIX (1947-1948), História da Poesia Portuguesa (1955-1959), Almeida Garrett: Vida, Pensamento, Obra (1964), 50 Anos de Poesia Portuguesa: Do Simbolismo ao Surrealismo (1967), História do Romance Português (1969-1978), Retratos de Poetas que conheci (1974) e José Régio e a História do Movimento da “Presença” (1977).
Entre 1943 e 1957 residiria na Avenida da República, em Cascais, onde redigiu parte das biografias de Eça de Queirós e de Fernando Pessoa. A casa dispunha de um simbólico cata-vento em forma de dragão devido ao facto de o escritor ser considerado um «Dragão da Crítica»!
 
12. Pedro Falcão [1908-2000]
Casa de Sant’Ana, Avenida Emídio Navarro, n.º 350
«No meu Cascais Menino há dois grupos distintos: Os que vêm passar o verão e os que ficam no inverno. São grupos completamente diferentes que mal se toleram, quase se desprezam. Quando está quase a acabar a temporada, os que cá ficam estão ansiosos por que os “lisboetas” se vão embora. E eles dão por isso e afinam com a história. Sentem-se indesejados. E nós, os de Cascais, estamos como quando se recebe uma visita em casa. Gostamos que esteja, mas quando já é tempo de mais, ansiamos por que se vá»
[Cascais Menino, 1981]
Natural de Cascais, Simão do Santíssimo Sacramento Pedro Cotta Falcão Aranha de Sousa e Menezes, celebrizado pelo nome de Pedro Falcão, veio, a par da sua atividade profissional multifacetada, a dedicar-se à escrita e à pintura, que soube sempre colorir com memórias do quotidiano da terra que o viu nascer.
Esta capacidade é fortemente evidenciada em obras como Os Valares (2004) ou Cascais Menino, testemunho escrito por um cascalense para os cascalenses. Quem gostaria de ler as suas impressões sobre o Senhor Antunes, o Zé Crespo ou o Retratista, senão um cascalense, de nascença ou de coração? E que cascalense não deixa de sorrir com as histórias saloias ou as alcunhas de Cascais? É esta vertente humana e local que importa reter na obra deste autor.

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