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Festas do Mar: Histórias para além da Música

As Festas do Mar começaram por ser a Festa dos Pescadores e assim eram conhecidas há 54 anos. Hoje mais vivas que nunca, estão muito associadas à música, graças a seu festival de verão gratuito, único em Portugal. Mas, a festa faz-se também com muitas outras histórias.

Histórias como a de Carlos Gomes que tem uma roulotte de farturas e que vem às tradicionais festividades há mais de 20 anos. Ou histórias mais recentes como a de Raquel Carvalho e do marido Jorge Bolinhas, ela cascalense e ele alentejano. Um casal com uma profisssão incomum – especialistas em taxidermia de peixes. Há quatro anos presentes nas Festas do Mar, por amor à divulgação e preservação das espécies marinhas, assim como pela necessidade de salvaguardar a importância dos pescadores, das suas tradições e oficio. Para além disso, Raquel faz bonecas de crochet que vende nas Festas do Mar, num tributo à arte de sua avó que era costureira e que a ensinava a fazer naperons nas férias da escola.

Enquanto o icónico palco da Baía de Cascais aguarda, ainda em silêncio, as luzes e os acordes que todas as noites o fazem o centro das atenções, já Carlos Gomes e a sua família se envolvem na azáfama diária, de fornecer a novos e velhos, cascalenses e turistas, as irresistíveis farturas que jamais podem faltar nas festas de rua. É um negócio de família que de geração em geração, tem passado, primeiro pela Festa dos Pescadores e agora, mais recentemente, nas Festas do Mar. Para Carlos Gomes são mais de duas décadas, “quando isto era uma festa pequena e só de pescadores, em que o dia da procissão era o ponto alto das vendas de farturas”.  Não como agora que não dá mãos a medir durante os 10 dias que dura a festa: “ Cada vez há mais gente e as farturas não passam de moda”, garante Carlos, para quem as suas são as melhores do sul do país. Sem desvendar muito do segredo familiar, Carlos afirma: “ Tem tudo a ver com a temperatura do óleo” e continua: “ Tem que ser aquela exata temperatura para que a massa não fique encharcada de óleo, nem queimada por fora e crua por dentro. É como uma ciência”. Sobre as diferenças de vender agora ou há 20 anos atrás, Carlos garante: “ Primeiro está sempre a qualidade e depois temos que nos adaptar ao gosto dos mais novos, temos que inovar com os churros e novas coberturas”. Ou não fosse esse o segredo de todos os negócios que perduram no tempo, a sábia mistura entre a tradição e a novidade, sempre com o selo da qualidade.

Já para Raquel e Jorge o “negócio” é outro, ainda que em comum com a família Gomes, tenham a preservação da tradição e dos valores ancestrais. A Taxidermia é um termo grego que significa "dar forma à pele" e o casal fá-lo com peixes da costa cascalense. Uma técnica de preservação da forma da pele, planos e tamanho dos peixes que pode durar centenas de anos como acontece com alguns dos exemplares que podem ver-se no Museu do Mar, em Cascais. São, inclusive, Raquel e Jorge que colaboram com aquele museu na conservação de espécimes tratadas com esta técnica, algumas das quais com mais de 400 anos. Raquel afirma, ainda, que a Taxidermia permite reconstituir as características físicas do animal e, às vezes, simulando seu habitat, o mais fielmente possível. Pelo que são usados como ferramentas para educação ambiental e como material didático. 

Para Raquel a Taxidermia está a tornar-se cada vez mais importante: “ Esta é uma forma fantástica de mostrar às gerações futuras espécies que infelizmente já se encontram extintas ou em vias de extinção. Esta é a forma mais próxima que alguma vez estarão de peixes ou animais marinhos que já não existem na Natureza ou que irão deixar de existir num futuro próximo”. Por isso, Raquel sublinha: “ Daí que estes materiais sejam um excelente instrumento didático, dar a conhecer o que existe no fundo do mar e a vida marinha que não está acessível a todos”, acrescentando: “ Preserva melhor quem conhece”. Daí que tanto Raquel como o marido já tenham percorrido as escolas do concelho, dar a mostra aos jovens “os seus peixinhos”.     

Hoje vendem sobretudo para colecionadores e museus e trabalham muito com pescadores, cujo ofício “ queremos também contribuir para manter e valorizar”, afirma Raquel.

Se quiser apreciar algumas das espécimes tratadas com esta técnica e que parecem tão reais quanto possível, basta dirigir-se a uma das casinhas de madeira na Praça 5 de Outubro, durante as Festas do Mar, onde Raquel e Jorge estarão disponíveis para dar todas as explicações, com uma simpatia contagiante e a infinita paciência de quem ama o que faz e nunca se cansa de falar sobre isso.

Mas, a arte de Raquel não se limita à conservação de peixes na sua própria pele, são obra sua também as bonecas e pequenos animais de crochet que expõe à entrada do seu quiosque. Como aconteceu com tantas jovens da sua geração, foi com a avó que Raquel aprendeu a arte do crochet: “ fazia naperons para a família toda durante as férias de verão”, numa altura em que não existia a tecnologia para fazer concorrência á arte de trabalhar com as mãos e a imaginação.

Raquel faz questão de só trabalhar com algodão biológico e proveniente do comércio justo, e tem na sustentabilidade a chave de toda a sua arte: “ Quero que as pessoas vejam como dantes se faziam os brinquedos. Era tudo muito sustentável porque não eram usados plásticos, mas materiais reciclados como pedaços de tecido e madeira”, refere a artesã, acrescentando: “ Temos que voltar a esses tempos pela necessidade de preservação do ambiente e pela nossa sobrevivência. Nós precisamos da natureza, mas a Natureza não precisa de nós”. E Raquel concluí: “Estamos todos ligados, a Natureza, os pescadores e o seu ofício, as mulheres que plantam e apanham o algodão… estamos todos ligados e o que fazemos afeta todos e cada um de nós”. ( PL)

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