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Germano de Sousa: [em Coimbra] aprendi que a liberdade é o bem maior na vida"

Gosta de estar à beira-mar, onde divide o olhar entre o oceano e serra, viajando em pensamento até à ilha de S. Miguel que o viu nascer a 24 de agosto de 1943. Leitor inveterado, confessa-se um verdadeiro adepto de Eça de Queiroz, que “se tivesse nascido inglês ou francês seria um dos maiores escritores universais”. Germano de Sousa, que aos 17 anos já queria ser médico pelo gosto pela biologia e por querer ajudar as pessoas, escolheu, em 1971, Cascais para viver “uma terra linda que não há igual”. A participação nos movimentos estudantis no período antes do 25 de Abril trocou-lhe as voltas e, em vez de ingressar ao serviço no hospital no final do curso, recebeu um “convite para fazer turismo em África”. No dia da “Revolução dos Cravos”, nem queria acreditar que estava realmente – e finalmente - a acontecer, e destaca o 25 de novembro de 1975 como a segunda data mais importante para que hoje possamos viver em Democracia. Cantor e ator nos tempos de Coimbra, médico por vocação, professor universitário e Bastonário da Ordem dos Médicos, o dono daquele que é provavelmente o maior laboratório de análises de capital exclusivamente nacional passa em revista os principais acontecimentos da sua vida.

Há quanto tempo vive em Cascais e porque escolheu este local para residir?
Como açoriano que sou, agradava-se viver junto ao mar… E Cascais é realmente uma terra linda que não há igual. De maneira que vim para cá em agosto de 1971 e resolvi ficar por aqui. Quando tenho saudades da penumbra dos penedos açorianos vou até Sintra que é mais parecida… (risos).

Aos 17 anos já sabia que queria ser médico. Porque é que optou pela Medicina?
Não sei. As coisas são como são. Tinha um tio na família que era médico, mas não foi por isso. Sempre tive uma vontade imensa de ajudar os outros e, aos 16, 17 anos, quando estava a acabar o liceu interroguei-me… eu gostava imenso de ciências biológicas e foi isso que eu escolhi. Ser médico. E se voltasse atrás escolhia o mesmo.

“SEMPRE TIVE UMA VONTADE IMENSA DE AJUDAR OS OUTROS.”

Deu o salto para o continente?
Não havia universidade nos Açores e vim para Coimbra que era para onde vinha quase toda a minha geração.

O 18 que teve em bioquímica já fazia antever o seu futuro ao nível das análises clínicas?
Era muito bom nessas áreas. Fui um bom aluno, nunca perdi ano nenhum e, ao mesmo tempo, os fenómenos biológicos e bioquímicos interessavam-me sempre muito…

A sua participação nos movimentos estudantis fez com que a PIDE, a Polícia de Estado, o impedisse de entrar para os hospitais públicos quando terminou o curso. Como lidou com essa contrariedade?
Eu fiz parte do CITAC – Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, considerado de extrema-esquerda, onde fui ator e dirigente e isso também valeu para que ficasse mal visto aos olhos da PIDE. Coimbra era uma cidade nesse tempo, única. No começo dos anos 60 assistimos às revoltas estudantis. Nessa altura, eu vivia na República “Real Corsários da Ilhas” da qual fui representante, durante a crise de 1965, cujo epicentro acontece em Coimbra, e a PIDE puniu-me por isso. Nessa altura, pela primeira vez, começa a ser pago o estágio hospitalar a seguir ao curso e, quando vou para entrar, a PIDE proibiu-me. Proibiu-me também de aceitar o convite para assistente hospitalar e convidou-me para fazer turismo em África, pelo que fui de escantilhão para a guerra…

“[EM COIMBRA] APRENDI QUE A LIBERDADE É O BEM MAIOR NA VIDA.”

Esteve em Angola, na guerra já como médico e sobreviveu, mas a morte andou por perto. Essa vivência mudou a sua vida?
Fui colocado no Hospital no Luso, hoje Luena. Trabalhávamos de manhã à noite e era complicado, porque às vezes tínhamos de fazer autópsias às pessoas com quem estivéramos a conversar à noite… Lembro-me uma vez em que o comboio onde seguia para ir fazer visitas médicas foi baleado, mas as balas passaram por cima. De outra vez, foi um ataque muito forte e muito duro, morreram pessoas ao meu lado, as balas zuniram… mas escapei…não era o meu dia. Talvez tenha mudado um pouco a minha perspetiva de vida, é preciso é viver a vida, porque ela é tão fácil de acabar.

Em Coimbra teve tempo para estudar Medicina e “aprender a ser homem”, o que quer isso dizer?
Coimbra era um campus universitário. Os estudantes andavam sempre juntos, constituíamos grupos, discutíamos todos os assuntos independentemente da PIDE e isso deu-me uma abertura enorme. Tínhamos a ideia de solidariedade, apoio, cultura – eu fiz teatro, cantei no Orfeu de Coimbra, até cantei fado em Coimbra. Tudo isso me fez crescer imenso e aí aprendi que a liberdade é o bem maior na vida.

Assinalamos este ano 48 anos sobre o 25 de abril. Um marco, uma vez que passamos a viver mais tempo em democracia do que o tempo em que se viveu sob o jugo da ditadura. A pergunta, inevitável, é: onde estava quando se deu o 25 de Abril de 1974?
Estava na minha cama, em Cascais. Às cinco da manhã telefona-me o José Nisa, meu amigo, o que compôs o “E depois do Adeus”, a dizer-me “Eh pá, olha que há uma revolução…” e eu recordo-me de lhe responder “Estás a brincar, deixa-me mas é dormir…” Mas depois pensei que poderia ser verdade e telefonei-lhe… e era… A partir daí começou o alvoroço. Levantei-me, vesti-me e fui para o Hospital.  Estava de banco e foi uma loucura total. As pessoas apareciam no hospital muito ansiosas… foi um dia complicado.

Como foi a viagem de Cascais até Lisboa nesse dia?
Foi complicada. Pararam-me [os militares] num ponto de controlo, mas identifiquei-me e deixaram-me passar.

Nos meses que se seguem tem uma intervenção muito ativa aqui em Cascais…
Fui convidado pelo Partido Socialista para fazer parte da Comissão Administrativa que geriu os destinos de Cascais até às primeiras eleições livres.

Eram reuniões difíceis?
Sim, às vezes.

Havia cadeiras pelo ar?
Pouco faltava.

Era uma democracia mais participada?
Sim, muito mais. Repare que entrámos logo a seguir em pleno PREC – Processo Revolucionário em Curso, em que a esquerda queria tomar posições que, às vezes, não eram compatíveis com aquilo que nós entendíamos serem os processos democráticos e isso é que gerava um péssimo entendimento entre nós todos. Foi um período muito complicado dentro da Câmara de Cascais.

Ajudou a apaziguar ânimos?
Creio que sim. Com a minha maneira de calma ser lá e porque compreendia perfeitamente muitas das reivindicações e o facto de me dar muito bem com a gente mais à esquerda… Tudo isso permitiu que, passadas aquelas tempestades mais “em copo de água” do que outra coisa, apesar de tudo, lá conseguimos acalmar e levar a coisa até às primeiras eleições livres que houve aqui no concelho.

Chegou a ser eleito vereador…
Sim, mas por pouco tempo. Pedi logo para ser substituído. Queria ser médico antes de mais (risos).

Teve outro papel de relevo no curso da história da democracia em Portugal…
Há duas datas que são fundamentais na construção da democracia. O 25 de Abril, antes de mais. Para mim a grande data. Simplesmente depois, a evolução do PREC levou a que se temesse uma tentativa de golpe que levasse ao estabelecimento der uma “democracia popular” e isso assustou-nos muito a todos. O Partido Socialista e o Partido Social Democrata organizaram-se para que isso não viesse a acontecer e preparámo-nos todos para o pior.
Há uma clara divisão acima do Tejo e Lisboa e o sul. Lisboa divide-se e sente-se que alguma coisa está prestes a acontecer. Acompanhei o Dr. Mário Soares na Fonte Luminosa (em Lisboa) que viria a ser o começo do que veio a ser o 25 de novembro de 1975. Na Fonte Luminosa toda a gente se juntou até perder de vista e deu para perceber que as pessoas não queriam o PREC e não queriam uma democracia dita “popular”.

Era voltar à ditadura…
Para quem como eu viveu e odiou a ditadura salazarista, cair numa ditadura de sinal contrário era inaceitável. Daí termo-nos organizado com o PS em colaboração com o PDS e o grupo dos nove (toda uma série de oficiais e sargentos milicianos que tinham vindo da guerra). Isso criou um clima que veio a dar num apoio áquilo que foi o 25 de novembro e tenho que tirar o chapéu ao então Tenente-Coronel, hoje General, Ramalho Eanes e ao falecido Major Jaime Neves, que foram essenciais para conter a tentativa dos grupos de extrema-esquerda… o PCP à última hora retirou-se e conseguiu-se impor a democracia.

Foi o travão para termos a democracia que temos hoje…
Teria sido muito mais difícil termos o que temos hoje sem o 25 de novembro.

Disse recentemente que sem o sistema convencionado de exames complementares de diagnóstico, o SNS criado por António Arnaut em 1978 nunca teria passado do papel.  Quer explicar?
Nessa altura, eu já fazia parte das estruturas da Ordem dos Médicos e lembro-me de ter perguntado “então como é que vamos dar toda essa saúde a toda a gente?” Havia pouca oferta para tanta gente. E sugeri na altura que, tal como a Ordem já estava a defender, o ideal seria recorrer às chamadas convenções, ou seja, que as pequenas estruturas fossem contratadas a preços socialmente justos no entender do Ministério da Saúde, para que os doentes pudessem recorrer a estas estruturas de modo a terem o apoio de que necessitavam.

Demorou algum tempo…
Cerca de dois anos… As coisas levam sempre tempo… Quase todos os meus colegas aderiram o que permitiu oferecer um leque de serviços que não haveria se isso não tivesse sido feito. A pouco e pouco as coisas foram-se constituindo. Creio que as convenções ainda hoje são extremamente importantes. Os convencionados são parte integrante do SNS e resolvem problemas que o SNS não consegue resolver. Antes da Covid-19, 22.000 pessoas, por dia, faziam análises nos laboratórios convencionados do país.

Disse recentemente que lhe resta “o consolo de saber que o custo médio dos exames laboratoriais feitos nos laboratórios do Estado é cerca de 20% mais caro do que o preço médio que pagam aos convencionados. Não devia ser o oposto?
Nós conseguimos fazer as coisas porque concentramos a preços razoavelmente baratos. Já demos hipótese ao Estado de estabelecer “plafonds” para os exames e de fazer recair a percentagem que ultrapasse o valor esperado sobre o prestador. Li que se prevê no PRR (Plano de Recuperação e Resiliência) dotar os centros de saúde de meios complementares de diagnóstico. Não percebo, porque se há coisa de que está coberto o país inteiro é de laboratórios de análises e de radiologia. Isso irá levar a gastos. Mesmo que o PRR venha a pagar os equipamentos, vai haver gastos muito superiores do que haveria de outra maneira. “Manda quem pode… obedece quem deve” (risos ao citar Salazar por ironia).

Hoje é dono de um dos maiores grupos de análises clínicas a nível nacional e conseguiu resistir à venda do seu laboratório ao estrangeiro… foram anos difíceis. Valeu a pena?
Os médicos são muito mal pagos nos hospitais públicos. Aos 38 anos era diretor hospitalar e o ordenado não dava para a família toda, pelo que resolvi trabalhar com um laboratório. Em 2003, era eu já Bastonário da ordem dos Médicos, quiseram comprar o meu laboratório, que já era razoável. Chamei os meus filhos, que também são patologistas clínicos e que trabalham comigo e perguntei-lhes se queriam vender. Eles disseram que não, que isso é a nossa vida… E foi o que fiz. Apertei o cinto e aguentei-me. Resolvi dar luta e, realmente, consegui defender o que era meu e transformar-me talvez num dos principais laboratórios portugueses, com capital exclusivamente português.

Esse espírito guerreiro é também o que o leva a dizer sim ao pedido do presidente Carlos Carreiras para criar o Centro de Rastreio e Diagnóstico à Covid-19 em Cascais, o qual seria um exemplo para todo o país?
De um momento para o outro a gente ouve falar num vírus que era lá para a China, “no fim do mundo”, como dizia Eça de Queiroz. De repente percebemos que nos ia entrar pela porta dentro, pelo que resolvemos preparar-nos. Fui dos primeiros a criar estruturas, quer a nível de diagnóstico, quer de rastreio… Quando o senhor presidente da Câmara nos contactou para darmos apoio não tivemos qualquer dúvida. E acho que correu bem.

Como conseguiu navegar na escassez de reagentes entre outros materiais?
Cheguei a pagar 90 euros só pelo reagente para uma unidade de teste ao SarsCov2. Houve encomendas pagas a desaparecer na alfândega… Era o salve-se quem puder em toda a Europa… Mais uma vez foram os laboratórios convencionados que aguentaram cerca de 50% dos testes laboratoriais feitos neste país. Foi um esforço enorme. Trabalhar 24 sobre 24 horas… houve dias em que tive 15 mil testes por dia…

A gestão de Cascais ajudou?
Foi muito importante. Foi fundamental.

Costuma dizer: “Gosto, amo a minha profissão”. Disse recentemente numa entrevista ao Expresso que “não foi para Bastonário para armar ao pingarelho, mas para deixar o mundo melhor”.  Tem conseguido até agora?
Podia dizer-se que “o fulano quer galões”, mas não. Quem como eu gosta da minha profissão sentia que a imagem dos médicos estava a degradar-se. Em 1998/99 havia notícias desagradáveis todos os dias sobre os médicos. E decidi candidatar-me para ver se conseguia por ordem na casa. E acho que consegui.

Privou com dois grandes músicos de intervenção Adriano Correia de Oliveira, seu grande amigo, e Zeca Afonso. Como foram esses tempos?
Rapazes saudosos das ilhas como éramos, cantávamos o folclore das nossas ilhas na nossa República na Universidade, a “Real República Corsários das Ilhas”. Tivemos um grupo de cantares açorianos com a toada de Coimbra com algum sucesso (ainda gravámos dois discos) e, quer o Adriano Correia de Oliveira, que era da República ao lado “A raios te parta”, quer o Zeca Afonso, que ia estudar para a minha República juntamente com o seu amigo (o Victor Lobão), aprenderam essas canções. E foi aí que os conheci e me tornei amigo deles. O Zeca vem depois a cantá-las como S. Macaio, Lira e outras.

Mostra grande interesse pela história tendo publicado recentemente a obra “História da Medicina durante a Expansão” e tem outra na forja. É o historiador que vive dentro do médico?
Gosto muito de história. Publiquei na Temas e Debates. Por enquanto não quero falar sobre o outro… Provavelmente daqui a seis sete meses haverá novidades.

Viver com tranquilidade, ensinar os outros a viver com tranquilidade… é a sua máxima. Sendo Cascais um dos concelhos do país com maior qualidade de vida, pode dizer-se que está no concelho certo?
Este é o concelho certo para viver. Eu tenho outro que é a ilha onde nasci, a Vila de Nordeste, em S. Miguel, que se calhar é até mais tranquilo, mas não há dúvida que Cascais é um excelente sítio para viver tranquilo.

Sítio favorito no concelho?
Vou pela Marginal adiante e fico ali junto ao mar a dividir o olhar entre o mar e a serra.

Livro favorito?
Sou um leitor inveterado. Se me perguntar qual o meu romance favorito, digo “Os Maias”, de Eça de Queiroz. A capacidade de juntar a ironia e adjetivar, criar ambientes com quatro ou cinco adjetivos e dois ou três substantivos… É notável. O único problema do Eça de Queiroz foi ser português, porque se fosse francês ou inglês era um dos maiores escritores universais.

Na gastronomia, qual o seu prato favorito?
Indiscutivelmente gosto de uma boa feijoada.

Desporto?
Não é a minha praia.

Valor inestimável?
Liberdade. Seria a última coisa que eu seria capaz de deixar de lado. Depois há o amor pela família, que passei aos meus filhos, mas a liberdade é essencial.

Cascais, abril de 2022

CMC/FH/GB/CB | Entrevista inserida no C - Tudo Sobre as Pessoas 132. Ler edição completa

 

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