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Rumo a um concelho mais coeso

Com cerca de 480 participantes, o Seminário “Coesão Social, uma responsabilidade partilhada” revelou-se um ponto de partida para a tomada de medidas conducentes a um concelho de Cascais mais coeso. Além da apresentação de dados históricos e atuais, foram dois dias de debate, no âmbito da Semana de Coesão Social que, envolveu ainda um Dia Aberto, com a participação de 234 pessoas que vieram conhecer ao vivo o trabalho realizado pelas organizações sociais do concelho.

Políticos, académicos, empresários, técnicos, beneficiários e público em geral, partilharam visões e colocaram novos desafios. Verdadeiro raio x da população do concelho, o Diagnóstico Social de Cascais fica agora disponível para consulta e estudos subsequentes, enquanto o livro Cascais Social permite revisitar a história da intervenção social desde a Idade Média ao final do século XX. É caso para dizer que a Semana da Coesão Social veio lançar novas pistas e desafios do muito que há a fazer para tornar Cascais mais coeso.

Em jeito de balanço, Frederico Pinho de Almeida, vereador da Ação Social na Câmara Municipal de Cascais, considera que esta primeira Semana da Coesão Social “foi um momento fantástico. Tivemos momentos de partilha e de reflexão sobre o trabalho desenvolvido ao longo dos anos e tivemos também uma oportunidade de projetar o futuro, no sentido de saber que caminhos temos de percorrer para continuar a ter um concelho mais justo e mais coeso”.

O vereador realça a participação dos técnicos e responsáveis de empresas que estiveram disponíveis para se colaborar neste processo, considerando ser essa “uma riqueza enorme, ao reforçar uma rede que já é muito ativa” isto porque se estreitam laços e se estabelecem novas parcerias entre o terceiro setor e o setor privado. Justamente para estreitar laços, uma das propostas feitas durante a semana foi para se mudar o nome de Rede Social de Cascais para outro mais apelativo. Frederico Pinho de Almeida garantiu que, apesar de “Rede Social” ser um nome formal, de lei e não poder ser alterado, é um assunto a ter em conta: “podemos ter uma marca diferente. Compreendo que se criarmos uma outra denominação poderá facilitar a perceção de maior abertura à comunidade desta grande rede”.

Modelo de financiamento deve ser atualizado

Mas houve outras alterações solicitadas. Desde logo foram pedidas mudanças a nível político no caso emergente do Estatuto dos Cuidadores Informais que não dá resposta às necessidades sentidas. Os participantes aproveitaram a ocasião e os interlocutores para lançar questões também no que respeita ao atual modelo de financiamento de projetos, critérios de seleção e duração, cuja atualidade é, no mínimo, questionável.

Defendendo que, atualmente, “as organizações sociais não têm incentivos para inovar ou aprender constantemente”, António Miguel, da Nova SBE, lançou algumas farpas ao atual estado de coisas: “Há pouca flexibilidade nos apoios”. “O financiamento a três anos promove a rigidez, como é possível? O mercado muda a cada seis meses…” Uma situação que desequilibra a balança no momento da aplicação de verbas: “Sabemos que apenas 10 cêntimos em cada euro é aplicado em ações preventivas, os restantes 90 cêntimos são para remediar o que correu mal”. Para o académico, é importante “assumir que a visão do outro as vezes pode ser melhor, ou assumir que uma situação não está a correr bem e identificar as falhas para poder melhorar e seguir em frente”.

Fazer perguntas

“Vocês não existem para fazer determinadas atividades com pessoas idosas. Vocês existem para que as pessoas idosas sejam mais felizes”, afirmou Ricardo Zozinho, da Nova SBE, dirigindo-se aos atores do Terceiro Setor. Para o académico, mais do que dar respostas, é preciso fazer perguntas. “As organizações têm de aproveitar as competências das pessoas. Há pouca disponibilidade para levar as pessoas a estarem no seu melhor e isso constrange a criatividade e o empreendedorismo”, salienta, sem deixar de questionar o Estado sobre “como pode ajudar a agilizar este processo?” Para uma sociedade mais coesa é fundamental haver transparência, por isso mesmo, António Miguel, defendeu perante a audiência que “é preciso medir impactos, gerir para o desempenho” e lançou o repto à Rede Social de Cascais e Câmara Municipal de Cascais: “O Diagnóstico Social de Cascais tem imensos dados e seria interessante saber que análises é possível fazer para se saber como se podem juntar melhor os pontos para intervir de forma preventiva mais estruturada. Por exemplo se sabemos que há um jovem x com problemas de abandono escolar, consumos de substâncias ilícitas, família destruturada, de que modo podemos prevenir questões futuras?”

Inovação a quanto obrigas

A preocupação da inovação também esteve presente no debate. Pedro Neves, da Nova SBE, destacou que “inovar não é só fazer robots. A vossa inovação parte da capacidade de identificar coisas que não funcionaram no passado e olhar para as propostas de forma diferente”. De qualquer modo, António Miguel, reconheceu que “a União Europeia tenta financiar a inovação através de processos que por si só são contrários à inovação”. Isabel Pinto Gonçalves, diretora de departamento da Ação Social na CMC, salientou as dificuldades vividas nas candidaturas ao financiamento por causa do número de habitantes ser menor do que o previsto ao nível europeu, por exemplo, mas é a realidade local. Uma situação que só é mitigada por candidaturas conjuntas de várias entidades que trabalham a mesma temática.

Outra questão em cima da mesa e que, no entendimento geral, justifica a revisão das políticas de financiamento na área social, o chamado “Terceiro Setor”, é a forma como é avaliado o desempenho das entidades. “O financiamento deveria ser orientado para taxas de sucesso maiores”. Por exemplo, um projeto com um público-alvo de 15 pessoas que atinge as 15 pessoas tem 100% de sucesso e um projeto programado para 100 pessoas que apenas cumpre 10% apenas chega a 10 pessoas. “Estamos a apoiar incumbentes que pela sua dimensão deveriam chegar a mais gente em vez de instituições que trilham o caminho das pedras”, disse António Miguel da Nova SBE.

Rede Social de Cascais, um caso de sucesso

Em termos gerais a Semana da Coesão Social trouxe a terreiro as preocupações partilhadas por todos no que diz respeito a um futuro marcado pela mudança. “Vocês são um caso de sucesso e um exemplo de bom funcionamento em rede”, parabenizou Pedro Neves, dirigindo-se à Rede Social de Cascais e CMC. “As dores que estão a sentir devem-se à mudança do paradigma societal, pelo que uma boa parte do vosso trabalho fica logo bloqueado pelo estigma dos grupos com quem trabalham.” Nova SBE já é parceira da Rede Social de Cascais Mas em que medida pode, por exemplo, um parceiro como a Nova SBE, que durante a Semana da Coesão Social formalizou a sua adesão à Rede Social de Cascais, contribuir para um concelho mais coeso? Recordando que a universidade tem estado a trabalhar em conjunto coma Rede Social nos últimos meses, Miguel Martins, informou que “a partir de janeiro de 2019, a Nova SBE vai ter dois novos programas inovadores”, pelo que se esperam novidades.

O que nos diz o Diagnóstico Social de Cascais?

Apresentado por Sérgio Barroso, coordenador do estudo, o painel dedicado ao Diagnóstico social de Cascais veio confirmar o tema do seminário, ou seja, que a coesão social é uma responsabilidade partilhada. “O leque de políticas está plasmado neste diagnóstico social”, referiu Sérgio Barroso, do CEDRU. “É um leque extremamente abrangente que torna bem claro que a coesão social é uma responsabilidade partilhada”. Defendendo que “é necessário encontrar novas formas de governar e intervir entre os atores do território no sentido de nos tronarmos mais eficazes e tornar a sociedade mais coesa”, Sérgio Barroso colocou o “dedo na ferida”: “Vamos ser mais e mais velhos. Temos de nos preparar nas diversas vertentes. Temos cada vez mais uma quarta idade. É um desafio demográfico”.

Analisando os dados recolhidos, o coordenador do estudo que ao longo de três anos entrou pela casa dos cascalenses e não só, deixou várias questões fundamentais para a adoção de novas medidas:

- é indispensável que a Rede Social de Cascais possa ser um laboratório social para monitorizar a realidade;

- é fundamental Cascais criar condições para continuar a ser um ecossistema de empreendedorismo social e melhorar as práticas de intervenção social; 

- as sub-redes da Rede Social de Cascais devem ser otimizadas e reestruturadas devido à fadiga da parceria.

“Estou certo que encontraremos um ponto de equilíbrio para termos uma rede social forte e equitativa. Desafios colhidos por Frederico Pinho de Almeida no encerramento do seminário: “vamos tentar alargar a rede e captar mais entidades privadas, porque isso vai ser uma mais-valia para o futuro e ajudar os nossos beneficiários”.

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